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À Mesa das Crianças

Nos eventos familiares, sempre me sentei à "mesa das crianças" ao lado primos, irmãos e outros da mesma faixa etária. Quando não era possível segregar as crianças dos adultos com uma mesa separada, as crianças ocupavam uma ponta da mesa. Perfeitamente compreensível, cada lado tinha seus próprios assuntos.

Nos eventos familiares, sempre me sentei à "mesa das crianças" ao lado primos, irmãos e outros da mesma faixa etária. Quando não era possível segregar as crianças dos adultos com uma mesa separada, as crianças ocupavam uma ponta da mesa. Perfeitamente compreensível, cada lado tinha seus próprios assuntos.

Passaram os anos e crianças estão barbadas, namorando, empregadas e até calvos, mas quando chega na hora de se sentar à mesa, a divisão entre crianças e adultos persiste - me perguntei o que faltava para ser promovido à mesa dos adultos.

Um rito de passagem. Não importa a idade das crianças à mesa, enquanto não passarem por este “rito”, não se tornam os adultos da mesa. Hoje em dia essa passagem é informal, talvez porque informalizamos tudo e desprezamos os ritos que deixavam a vida mais “mágica”, essa passagem pode ser um noivado, sair de casa, ter as finanças próprias, enfim, qualquer sinal patente de independência já te faria adulto. A essência da passagem ainda se conserva na capacidade do indivíduo em formar seu próprio seio familiar.

Dando um pequeno salto, o rito de passagem protoindo-europeu dos homens jovens à vida adulta se dava através do “kóryos”: literalmente um bando de moleques, geralmente de famílias proeminentes, enviados para viver como guerreiros à margem de suas sociedades (na mesa das crianças). Os kóryos eram como matilhas (a literatura acadêmica inclusive sugere que os meninos se vestiam com peles de lobo) os jovens saíam armados pelas estepes e florestas, caçavam sua comida, domavam seus cavalos, e inclusive atacavam ou subjugavam povoados estrangeiros.

Não é coincidência a palavra kóryos (tropa, armados) se assemelhar tanto com a palavra kóros (tropa, moços) do grego antigo. A ephebeia ateniense e a krypteia espartana - adolescentes enviados para as margens da sociedade para guardar as fronteiras e caçar (invasores, animais ou hilotas) com táticas consideradas rasteiras - são uma herança protoindo-europeia. Os kóros têm seu mito fundador nos Dióscuros, os gêmeos Castor e Pólux, jovens inseparáveis cujas histórias são típicas do rito de passagem - caçadas, raptos, aventuras, truques e emboscadas – longe dos épicos e tragédias heroicas, os gêmeos se aventuravam pela emoção de se aventurarem, não o faziam pela sua família, pátria, ideal superior ou mandamento divino.

Todos estes ritos de passagem destituem o menino de sua posição social e até mesmo ontológica, e o coloca em um estado de liminaridade – na fronteira entre vida e morte, entre menino e homem, entre apátrida e cidadão. Não é à toa que no mito dos Dióscuros têm como tema central a morte de Castor; Pólux não querendo se separar do irmão obteve de seu pai Zeus a dádiva de “viverem” juntos alternando entre o Olimpo e o Hades. A liminaridade naturalmente força o sujeito a sair dela, demanda uma mudança substancial para sair da fronteira entre dois seres.

Com a complexificação das sociedades, a liminaridade dos ritos de passagem se tornou mais simbólica. Em Roma o serviço militar para os adolescentes foi substituído pelos tirocinium sob um guia mais velho para treinarem habilidades marciais e políticas, e prepararem para ganhar seus direitos políticos aos 25 anos de idade. Na era cristã, a vida girava em torno dos sacramentos, o homem nascia no batismo, amadurecia na crisma, e tornava-se adulto no pé do altar do sacrifício da missa - votos vitalícios eram firmados e o homem deixava sua vida anterior para viver por esses votos. O altar era o fim da vida do cristão, não obstante as pias batismais ficavam no nártex - primeiro limiar entre a vida e morte espirituais, altares eram erigidos sobre os "calvários” dos mártires, e os presbitérios eram a primeira coisa que alguém via quando entrava numa igreja, todo cristão que chegava à vida adulta estará diante do altar, seja casando-se, sendo ordenado ou professando votos.

As divagações anteriores farão sentido agora que pulamos uns milênios no futuro para a melhor época da história humana: os anos 2000. Se Eliade tivesse vivido esta década provavelmente a consideraria a Idade do Ouro mítica.

O ensaísta (tuiteiro profissional) Paul Skallas, alcunhado “Lindyman”, escreveu em 2023 o artigo “The Vulgar Wave”, descrevendo uma onda cultural entre meados da década de 90 até o final da década seguinte. O autor escreve sobre como a produção cultural orbitava o público masculino jovem: comédias besteirol, humor negro, anti-carreirismo, jogos de tiro, filmes de ação, mulheres de biquíni, nu-metal, etc...

A produção cultural dessa onda era extremamente endêmica à sua época: Não se vê mais comédias besteirol no cinema, muito menos do Adam Sandler, Eddie Murphy ou do Seth Rogen; se Pânico na TV ou Jackass estreassem hoje, seriam cancelados no seu episódio piloto; Evanescence, Blink-182 e afins nunca teriam estourado se debutassem atualmente. Meninos millennials e zoomers (perdoem meu estrangeirismo) viviam numa cultura que dialogava com o ímpeto errático juvenil, mas não direcionava esse ímpeto, como era o caso dos ritos de passagem.

Taxa de casamentos a cada 1.000 habitantes nos EUA
Taxa de casamentos a cada 1.000 habitantes nos EUA
Número de crianças filhas de pais solteiros nos EUA
Número de crianças filhas de pais solteiros nos EUA – em 1990 havia 63 milhões de menores de idade no país.
Taxa de frequência em serviços religiosos nos EUA
Taxa de frequência em serviços religiosos nos EUA.
O que homens e mulheres julgam essencial para satisfação com a vida
O que homens e mulheres julgam essencial para satisfação com a vida.

Nas décadas (e há quem diga séculos) anteriores à essa onda cultural, a frequência nos ritos religiosos seguiu reduzindo, menos pessoas se casavam e a quantidade de famílias monoparentais crescia. O matrimônio como instituição perdeu sua indissolubilidade e prioridade na formação individual, e a religiosidade deixou de ser uma prática constante para se tornar um depósito de valores morais e sentimentos espirituais. A transmissão de tradições nos seios familiar e religioso foi se dissolvendo, valores, experiências e significados morriam a cada geração, esvaziando os ritos sociais e religiosos de sua razão de ser.

Os homens nascidos e criados durante a Vulgar Wave não só eram os maiores consumidores da cultura de massa da época, eram também produtores. Os mesmos jovens que buscam criar e emular a própria liminaridade através da arte, em gerações passadas teriam um rumo quase natural ao amadurecimento através dos ritos estabelecidos.

Diretores de Matrix em 1999 Desenvolvedores de Doom em 1993
À esquerda: diretores de Matrix (1999), à direita: desenvolvedores de Doom (1993)

A essência dessa onda cultural está na busca pela liberdade e liminaridade dos antigos ritos de passagem, uma vez que os ritos se perderam e/ou foram esvaziados. A masculinidade na Vulgar Wave não é o tipo de masculinidade virtuosa que se esperaria de uma figura paterna responsável, a masculinidade dessa onda era chucra, distintamente moleque, desejosa de aventuras ainda que emuladas.

Não obstante a temática de revolta e fuga do cotidiano era comum nos filmes da época: Matrix, Clube da Luta, Psicopata Americano, Sendo John Malkovich, V de Vingança, enfim, não preciso listar tudo. Na música esse sentimento de revolta e fuga também estava presente, o gangsta rap (cujos cantores faziam jus ao nome “gangsta”) subiu ao mainstream e influenciou até mesmo a forma como os jovens se vestiam; o grunge e nu-metal viveram sua era de ouro, e suas letras quase sempre expressavam uma agonia com a própria vida e um desejo quase heroico de superar essa agonia – sim, 50 Cent e My Chemical Romance se popularizaram pelo mesmo motivo.

Fotografia de um grupo de pessoas

O outro lado da vulgaridade estava na quebra da etiqueta social e da moralidade sexual, a fuga desses parâmetros sociais é um dos fatores na liminaridade. A comédia besteirol era... besteirol; piadas pueris, de humor negro e de duplo sentido iam de encontro à seriedade adulta e a inocência infantil. Você não gostava da Megan Fox pela atuação, a sexualidade era outra expressão de libertação, eram comuns aos filmes de comédia ou ação terem suas musas - uma atriz extremamente atraente que se envolvia com o protagonista, existia um nicho de atrizes famosas apenas pela aparência. Até na indústria musical homens e mulheres cantavam sobre romance (e sexo, de forma implícita), e o rap saiu da crítica social para ostentação de posses e mulheres (pleonasmo).

Capa do filme Click Capa do filme Eurotrip

A Vulgar Wave revelou-se mais do que uma onda cultural; foi o sintoma visível de uma sociedade que esvaziou seus ritos de passagem. Se tratava de expressar a agonia inconsciente da perda do rito de passagem e a revolta contra o mundo que a esvaziou, essa onda se tornou um simulacro de passagem; a molecagem chucra e a liminaridade estão presentes mesmo sem um rito ou um objetivo claro de vida após a morte simbólica.

Prefiro deixar o porquê do fim dessa onda e o que a sucedeu para um ensaio futuro, espero que eu não demore tanto para escrevê-lo.